Sunday, November 26, 2006

Cidadela

O dia levantou-se frio. Anuncia o Inverno e convida à contemplação. Acendo a lareira, companheira das minhas meditações, e recomeço a reler "Cidadela" de Saint-Exupéry. Profunda e longa reflexão sobre o homem, seus problemas e suas interrogações. Deste magnífico texto, Ruy Belo, tradutor da obra, diz: " Cidadela passará à história, iluminada pelo conjunto da produção de Saint-Exupéry, como uma das obras primas do nosso tempo. Dela poderíamos dizer uma das muitas frases hoje obrigatórias: "Está lá tudo".
Transcrevo para aqui um pequeno grão de areia desse "tudo", retirado das primeiras páginas:
"Há um tempo para escolher entre sementes, mas há também um tempo para gozar do medrar das searas, depois de se ter escolhido uma vez por todas. Há um tempo para a criação, mas há também um tempo para as cisternas em que as águas derramadas se vão reunir. Há um tempo para a conquista, mas lá vem o tempo da estabilidade dos impérios: eu, que sou servidor de Deus, tenho o gosto da eternidade (...).
Todo eu me encho de medo quando Deus remexe. Ele, o imutável, que permaneça firme na eternidade! Porque há um tempo para a génese, mas há um tempo, um tempo beatífico, para o costume!
É preciso pacificar, cultivar e polir. Sou aquele que tapa as fendas do solo e esconde aos homens os traços do vulcão. Sou a relva sobre o abismo. Sou a eira que doura os frutos. Sou a barcaça que recebeu de Deus uma geração em penhor e a passa de uma margem para outra. Ele, por sua vez, recebê-la-é das minhas mãos tal como ma confiou, mais madura talvez, mais sábia, mais hábil no cinzelar dos gomis de prata, mas não mudada. Encerrei o meu povo dentro do meu amor.
É por isso que goza da minha protecção aquele que, passadas sete gerações, volta a pegar na carena do barco ou na curvatura do escudo, disposto a encaminhá-la por sua vez para a perfeição. Pode contar com a minha protecção aquele que herda do avô cantor o poema anónimo e, ao dizê-lo por sua vez, e ao enganar-se por sua vez, lhe ajunta o seu sumo, o seu desgaste, a sua marca. Amo a mulher prenhe ou a que dá de mamar, amo o rebanho que se perpetua, amo as estações que se sucedem. Porque eu cá sou, antes de mais, aquele que mora.
Ó cidadela em que moro, prometo salvar-te dos projectos de areia, e hei-de bordar-te de clarins tudo à volta. Mandá-los-ei tocar na guerra contra os bárbaros!"

Friday, November 24, 2006

Poema das Árvores

24 de Novembro de 1906. Nasce Rómulo Vasco da Gama de Carvalho.
Professor, formado em Ciências Fisico- Quimícas, pedagogo, historiador da ciência, da educação e poeta.
Patrono da escola onde mais anos leccionei, António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho, ensinou-me a olhar para a importância do sonho, da esperança, da lucidez - caminhos da liberdade...
Hoje, dia do seu aniversário, e porque nasci árvore, aqui fica o seu "Poema das Árvores" para quem visitar este espaço.


As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores, não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
A crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
E entretanto dar flores.

Thursday, November 16, 2006

Três dias para ver

Sentada junto às pedras centenárias do meu retiro, disfruto do entardecer calmo e sereno de uma tarde de outono, lendo um dos textos mais belos que conheço - "Três dias para ver" - de Helen keller, extraordinária mulher, que apesar de cega e surda, desde tenra idade, soube enfrentar e superar todos os obstáculos, tornando-se uma das personalidades mais notáveis do século XX.
"Várias vezes pensei que seria uma benção se todo o ser humano, de repente, ficasse cego e surdo por alguns dias no príncipio da vida adulta. As trevas o fariam apreciar mais a visão e o silêncio lhe ensinaria as alegrias do som.
Há pouco tempo perguntei a uma amiga que voltava de um longo passeio pelo bosque o que ela observara. "Nada de especial", foi a resposta.
Como é possível, pensei, caminhar durante uma hora pelos bosques e não ver nada digno de nota? Eu, que não posso ver, apenas pelo tacto encontro centenas de objectos que me interessam. Sinto a delicada simetria de uma folha. Passo as mãos pela casca lisa de uma pétala ou pelo tronco áspero de um pinheiro. Na primavera, toco os galhos das árvores na esperança de encontrar um botão, o primeiro sinal da natureza despertando após o sono do inverno. Por vezes, quando tenho muita sorte, pouso suavemente a mão numa arvorezinha e sinto o palpitar feliz de um pássaro cantando.
Se consigo ter tanto prazer com um simples toque, quanta beleza poderia ser revelada pela visão! E imaginei o que mais gostaria de observar se pudesse ver por apenas três dias.
No primeiro dia gostaria de ver as pessoas cuja bondade e companhia fizeram a minha vida valer a pena. Não sei o que é olhar dentro do coração de um amigo pelas "janelas da alma", os olhos. Só consigo "ver" as linhas de um rosto por meio das pontas dos dedos.(...)
Reuniria todos os meus amigos queridos e olharia seus rostos por muito tempo, imprimindo em minha mente as provas exteriores da beleza que existe dentro deles.
Gostaria de ver os livros que já foram lidos para mim e que me revelaram os meandros mais profundos da vida humana.
À tarde daria um longo passeio pela floresta, intoxicando meus olhos com belezas da natureza E rezaria pela glória de um pôr-do-sol colorido. Creio que nessa noite não conseguiria dormir.
No dia seguinte levantar-me-ia ao amanhecer para assistir ao empolgante milagre da noite se transformando em dia. Contemplaria assombrada o magnífico panorama de luz com que o Sol desperta a Terra adormecida. (...)
Nesse segundo dia tentaria sondar a alma do homem por meio da sua arte. Veria então o que conheci pelo tacto. Mais maravilhoso ainda, todo o magnífico mundo da pintura me seria apresentado.
A noite do meu segundo dia seria passada no teatro ou no cinema. Como gostaria de ver a figura fascinante de Hamlet ou o tempestuoso Falstaff. (...)
Na manhã seguinte, ávida por conhecer novos deleites, novas revelações de beleza, mais uma vez receberia a aurora. O terceiro dia, passaria no mundo do trabalho, nos ambientes dos homens que tratam do negócio da vida. A cidade seria o meu destino.(...)
Os meus olhos estariam sempre abertos tanto para as cenas de felicidade quanto para as de tristeza para descobrir como as pessoas vivem e trabalham, e compreendê-las melhor. Na noite desse último dia voltaria a um teatro e veria uma peça cómica, para poder apreciar as implicações da comédia no espírito humano.
À meia-noite, uma escuridão permanente outra vez se cerraria sobre mim. Claro, nesses três dias curtos eu não teria visto tudo o que queria ver. Só quando as trevas descessem de novo é que me daria conta do quanto eu deixei de apreciar.(...)
Usem seus olhos como se amanhã fossem perder a visão. E o mesmo se aplica aos outros sentidos. Oiçam a música das vozes, o canto dos pássaros, os possantes acordes de uma orquestra, como se amanhã fossem ficar surdos. Toquem cada objecto como se amanhã perdessem o tacto. Sintam o perfume das flores, saboreiem cada bocado, como se amanhã não mais sentissem aromas nem gostos.
Usem ao máximo todos os sentidos; gozem de todas as facetas do prazer e da beleza que o mundo lhes revela pelos vários meios de contacto fornecidos pela natureza. Mas, de todos os sentidos, estou certa de que a visão deve ser o mais delicioso"

Saturday, November 11, 2006

Memórias da Grande Guerra

O dia acordou cinzento. Olho pela janela e vislumbro uma avis rara no alto mar, boiando na espuma branca das ondas revoltas. Alguém a feriu profundamente e ela levantou um voo magoado. Cansada, caíu às águas límpidas do Atlântico. Decido tomar o pequeno almoço junto ao mar para melhor a observar e levo comigo o livro que estou a ler "Memórias da Grande Guerra" de Jaime Cortesão, médico do Corpo Expedicionário Português, durante a participação portuguesa na Grande Guerra. Historiador, político, pedagogo, ficcionista e dramaturgo, Jaime Cortesão é também poeta. Estas páginas estão imbuídas desse sentimento profundamente poético:
"É alta noite. Acendo uma vela. Há algumas horas que sinto um mal horrível. Tomou-me uma tosse violenta, ao passo que me ganha o peito uma opressão e um ardor horrível, como se me houvessem despejado algum líquido corrosivo cá dentro. Os olhos doem-me agudamente. Vejo-me a um pequeno espelho metálico de algibeira. Diabo! Tenho a impressão de que uma névoa me não deixa ver bem. É que estão irritados e laivados de sangue. Espreguiço-me. Sinto juntamente uma fadiga imensa e uma necessidade inquieta de me agitar. Disponho papéis; abro a mala; tomo e largo coisas à toa, até que enfim começo e despir-me.
Mas eis que anseio numa nova aflição. Arquejo, sacudido de haustos e vómitos hediondos, e, longamente, corre-me da boca uma espuma branca e viscosa laivada de sangue.
Agora uma atonia funda prostra-me o corpo. Urge que me deite. E, quando vou a meter-me na cama, sinto um ardor violento e cruciante nos olhos que entram de chorar a grandes bagadas. De súbito cerram-se e quando tento de novo abri-los, sinto que as pálpebras estão violentamente coladas uma à outra. Então afasto-as um pouco para logo as deixar cerrar, tão doloroso é esse esforço. Mas, - coisa horrível! - eu não vi. Uma suspeita terrivel me lanceia a alma: estarei cego?! Afasto de novo as pálpebras. Horror! Não vejo! Não vejo! Estou cego! O coração bate marteladas doidas.
Sento-me na cama e procuro dominar-me. Digo a mim mesmo que é naturalmente inflamação passageira. Mas como não vejo e só o tacto agora me guia, na tontura da aflição e da fadiga extrema, cambaleio e tropeço em tudo. Às apalpadelas consigo deitar-me. Tento descansar. Mas não há maneira: o coração acicatado da emoção horrível, exaustinado pelo veneno, galopa, galopa cá dentro. No quarto, por cima de mim, os meus dois pobres companheiros gemem, decerto alanceados pelas mesmas dores. Agora não gemem, uivam espantosamente. E o meu coração não descansa. Sufoco. (...)"
Gaivotas inquietas impedem-me de continuar a leitura destas páginas tão sentidas e tão profundas. A avis rara permanece envolta nas ondas. Parece querer diluir-se na brancura do Atlântico. Voltei para casa, para a minha varanda voltada para o mar, impressionada com este relato verídico de Jaime Cortesão referente à sua participação na Grande Guerra. No seu dizer "sofreu demais para poder mentir". Mas não voltei só. Regressei acompanhada destas palavras que memorizei do seu post-scriptum:
"Venho de empenhar o meu esforço em luta de tamanha grandeza que mais não posso servir mentiras ou misturar-me em prélios mesquinhos. A guerra armou-me com uma lata e aguda lança. Mais do que nunca eu quero combater. Proponho-me, todavia, não a empunhar em defesa dos erros alheios, nem lhe manchar o brilho na poeira torva, que levantam os maus combates".