Cidadela
O dia levantou-se frio. Anuncia o Inverno e convida à contemplação. Acendo a lareira, companheira das minhas meditações, e recomeço a reler "Cidadela" de Saint-Exupéry. Profunda e longa reflexão sobre o homem, seus problemas e suas interrogações. Deste magnífico texto, Ruy Belo, tradutor da obra, diz: " Cidadela passará à história, iluminada pelo conjunto da produção de Saint-Exupéry, como uma das obras primas do nosso tempo. Dela poderíamos dizer uma das muitas frases hoje obrigatórias: "Está lá tudo".
Transcrevo para aqui um pequeno grão de areia desse "tudo", retirado das primeiras páginas:
"Há um tempo para escolher entre sementes, mas há também um tempo para gozar do medrar das searas, depois de se ter escolhido uma vez por todas. Há um tempo para a criação, mas há também um tempo para as cisternas em que as águas derramadas se vão reunir. Há um tempo para a conquista, mas lá vem o tempo da estabilidade dos impérios: eu, que sou servidor de Deus, tenho o gosto da eternidade (...).
Todo eu me encho de medo quando Deus remexe. Ele, o imutável, que permaneça firme na eternidade! Porque há um tempo para a génese, mas há um tempo, um tempo beatífico, para o costume!
É preciso pacificar, cultivar e polir. Sou aquele que tapa as fendas do solo e esconde aos homens os traços do vulcão. Sou a relva sobre o abismo. Sou a eira que doura os frutos. Sou a barcaça que recebeu de Deus uma geração em penhor e a passa de uma margem para outra. Ele, por sua vez, recebê-la-é das minhas mãos tal como ma confiou, mais madura talvez, mais sábia, mais hábil no cinzelar dos gomis de prata, mas não mudada. Encerrei o meu povo dentro do meu amor.
É por isso que goza da minha protecção aquele que, passadas sete gerações, volta a pegar na carena do barco ou na curvatura do escudo, disposto a encaminhá-la por sua vez para a perfeição. Pode contar com a minha protecção aquele que herda do avô cantor o poema anónimo e, ao dizê-lo por sua vez, e ao enganar-se por sua vez, lhe ajunta o seu sumo, o seu desgaste, a sua marca. Amo a mulher prenhe ou a que dá de mamar, amo o rebanho que se perpetua, amo as estações que se sucedem. Porque eu cá sou, antes de mais, aquele que mora.
Ó cidadela em que moro, prometo salvar-te dos projectos de areia, e hei-de bordar-te de clarins tudo à volta. Mandá-los-ei tocar na guerra contra os bárbaros!"

