Música imortal
"A vida passa e o corpo e a alma escoam-se como uma torrente, os anos inscrevem-se no cerne da árvore que envelhece, o mundo inteiro das formas desgasta-se e renova-se.
Só tu não passas música imortal.
Tu és o mar interior, tu és a alma profunda. Nas tuas claras pupilas, a vida não mira a sua face melancólica. Distante de ti, qual rebanho de nuvens, fogem os dias adustos, gelados e ardentes que a inquietação persegue, que nada consegue fixar. Só tu não passas. Estás à margem do mundo. Tu, sózinha, és um mundo. Tens o teu Sol, que conduz a tua ronda de planetas, a tua gravitação, os teus números e as tuas leis. Tens a paz das estrelas que traçam no campo dos espaços nocturnos uma esteira luminosa - charruas de prata guiadas pelo invisivel lavrador.
Música, serena amiga, a tua claridade lunar é suave aos olhos fatigados pela luminosidade brutal do sol que nos queima. A alma que se desvia do bebedouro comum, onde os homens para beber remexem o lodo com os pés, aperta-se contra o teu peito e suga nos teus seios o regato de leite do sonho.
Música, virgem mãe, que trazes no teu corpo imaculado todas as paixões, que abarcas no lago dos teus olhos cor de junco, cor da água verde-pálida das geleiras, todo o bem, todo o mal - estás para além do mal, estás para além do bem.
Quem em ti fez o seu ninho vive fora dos séculos, a sequência dos seus dias será apenas um dia, e a morte, que tudo morde, aí partirá os dentes.
Música que embalaste a minha alma dolorida, música que a restituíste calma, firme e jubilosa - meu amor e meu bem - , beijo a tua boca pura, nos teus cabelos de mel escondo o meu rosto, apoio as minhas pálpebras que ardem na macia palma das tuas mãos. E calamo-nos, os nossos olhos estão fechados e vejo a luz inefável dos teus olhos, bebo o sorriso da tua boca muda e, aninhado no teu coração, ouço o pulsar da vida eterna".
Maravilhoso livro este "Jean Christophe"!
Nestes dias de chuva fria e copiosa, com ventos fortes e gelados, com o sol ausente, teimando em não nos visitar, Romain Rolland, aquece-nos a alma, fazendo a apologia da Música, da Vida, da sua beleza, pureza e profundidade. O herói é o símbolo do génio que luta contra a mediocridade na vida e na arte, em defesa de um ideal que há-de salvar o ser humano.


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