Memórias da Grande Guerra
O dia acordou cinzento. Olho pela janela e vislumbro uma avis rara no alto mar, boiando na espuma branca das ondas revoltas. Alguém a feriu profundamente e ela levantou um voo magoado. Cansada, caíu às águas límpidas do Atlântico. Decido tomar o pequeno almoço junto ao mar para melhor a observar e levo comigo o livro que estou a ler "Memórias da Grande Guerra" de Jaime Cortesão, médico do Corpo Expedicionário Português, durante a participação portuguesa na Grande Guerra. Historiador, político, pedagogo, ficcionista e dramaturgo, Jaime Cortesão é também poeta. Estas páginas estão imbuídas desse sentimento profundamente poético:
"É alta noite. Acendo uma vela. Há algumas horas que sinto um mal horrível. Tomou-me uma tosse violenta, ao passo que me ganha o peito uma opressão e um ardor horrível, como se me houvessem despejado algum líquido corrosivo cá dentro. Os olhos doem-me agudamente. Vejo-me a um pequeno espelho metálico de algibeira. Diabo! Tenho a impressão de que uma névoa me não deixa ver bem. É que estão irritados e laivados de sangue. Espreguiço-me. Sinto juntamente uma fadiga imensa e uma necessidade inquieta de me agitar. Disponho papéis; abro a mala; tomo e largo coisas à toa, até que enfim começo e despir-me.
Mas eis que anseio numa nova aflição. Arquejo, sacudido de haustos e vómitos hediondos, e, longamente, corre-me da boca uma espuma branca e viscosa laivada de sangue.
Agora uma atonia funda prostra-me o corpo. Urge que me deite. E, quando vou a meter-me na cama, sinto um ardor violento e cruciante nos olhos que entram de chorar a grandes bagadas. De súbito cerram-se e quando tento de novo abri-los, sinto que as pálpebras estão violentamente coladas uma à outra. Então afasto-as um pouco para logo as deixar cerrar, tão doloroso é esse esforço. Mas, - coisa horrível! - eu não vi. Uma suspeita terrivel me lanceia a alma: estarei cego?! Afasto de novo as pálpebras. Horror! Não vejo! Não vejo! Estou cego! O coração bate marteladas doidas.
Sento-me na cama e procuro dominar-me. Digo a mim mesmo que é naturalmente inflamação passageira. Mas como não vejo e só o tacto agora me guia, na tontura da aflição e da fadiga extrema, cambaleio e tropeço em tudo. Às apalpadelas consigo deitar-me. Tento descansar. Mas não há maneira: o coração acicatado da emoção horrível, exaustinado pelo veneno, galopa, galopa cá dentro. No quarto, por cima de mim, os meus dois pobres companheiros gemem, decerto alanceados pelas mesmas dores. Agora não gemem, uivam espantosamente. E o meu coração não descansa. Sufoco. (...)"
Gaivotas inquietas impedem-me de continuar a leitura destas páginas tão sentidas e tão profundas. A avis rara permanece envolta nas ondas. Parece querer diluir-se na brancura do Atlântico. Voltei para casa, para a minha varanda voltada para o mar, impressionada com este relato verídico de Jaime Cortesão referente à sua participação na Grande Guerra. No seu dizer "sofreu demais para poder mentir". Mas não voltei só. Regressei acompanhada destas palavras que memorizei do seu post-scriptum:
"Venho de empenhar o meu esforço em luta de tamanha grandeza que mais não posso servir mentiras ou misturar-me em prélios mesquinhos. A guerra armou-me com uma lata e aguda lança. Mais do que nunca eu quero combater. Proponho-me, todavia, não a empunhar em defesa dos erros alheios, nem lhe manchar o brilho na poeira torva, que levantam os maus combates".


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