Thursday, November 16, 2006

Três dias para ver

Sentada junto às pedras centenárias do meu retiro, disfruto do entardecer calmo e sereno de uma tarde de outono, lendo um dos textos mais belos que conheço - "Três dias para ver" - de Helen keller, extraordinária mulher, que apesar de cega e surda, desde tenra idade, soube enfrentar e superar todos os obstáculos, tornando-se uma das personalidades mais notáveis do século XX.
"Várias vezes pensei que seria uma benção se todo o ser humano, de repente, ficasse cego e surdo por alguns dias no príncipio da vida adulta. As trevas o fariam apreciar mais a visão e o silêncio lhe ensinaria as alegrias do som.
Há pouco tempo perguntei a uma amiga que voltava de um longo passeio pelo bosque o que ela observara. "Nada de especial", foi a resposta.
Como é possível, pensei, caminhar durante uma hora pelos bosques e não ver nada digno de nota? Eu, que não posso ver, apenas pelo tacto encontro centenas de objectos que me interessam. Sinto a delicada simetria de uma folha. Passo as mãos pela casca lisa de uma pétala ou pelo tronco áspero de um pinheiro. Na primavera, toco os galhos das árvores na esperança de encontrar um botão, o primeiro sinal da natureza despertando após o sono do inverno. Por vezes, quando tenho muita sorte, pouso suavemente a mão numa arvorezinha e sinto o palpitar feliz de um pássaro cantando.
Se consigo ter tanto prazer com um simples toque, quanta beleza poderia ser revelada pela visão! E imaginei o que mais gostaria de observar se pudesse ver por apenas três dias.
No primeiro dia gostaria de ver as pessoas cuja bondade e companhia fizeram a minha vida valer a pena. Não sei o que é olhar dentro do coração de um amigo pelas "janelas da alma", os olhos. Só consigo "ver" as linhas de um rosto por meio das pontas dos dedos.(...)
Reuniria todos os meus amigos queridos e olharia seus rostos por muito tempo, imprimindo em minha mente as provas exteriores da beleza que existe dentro deles.
Gostaria de ver os livros que já foram lidos para mim e que me revelaram os meandros mais profundos da vida humana.
À tarde daria um longo passeio pela floresta, intoxicando meus olhos com belezas da natureza E rezaria pela glória de um pôr-do-sol colorido. Creio que nessa noite não conseguiria dormir.
No dia seguinte levantar-me-ia ao amanhecer para assistir ao empolgante milagre da noite se transformando em dia. Contemplaria assombrada o magnífico panorama de luz com que o Sol desperta a Terra adormecida. (...)
Nesse segundo dia tentaria sondar a alma do homem por meio da sua arte. Veria então o que conheci pelo tacto. Mais maravilhoso ainda, todo o magnífico mundo da pintura me seria apresentado.
A noite do meu segundo dia seria passada no teatro ou no cinema. Como gostaria de ver a figura fascinante de Hamlet ou o tempestuoso Falstaff. (...)
Na manhã seguinte, ávida por conhecer novos deleites, novas revelações de beleza, mais uma vez receberia a aurora. O terceiro dia, passaria no mundo do trabalho, nos ambientes dos homens que tratam do negócio da vida. A cidade seria o meu destino.(...)
Os meus olhos estariam sempre abertos tanto para as cenas de felicidade quanto para as de tristeza para descobrir como as pessoas vivem e trabalham, e compreendê-las melhor. Na noite desse último dia voltaria a um teatro e veria uma peça cómica, para poder apreciar as implicações da comédia no espírito humano.
À meia-noite, uma escuridão permanente outra vez se cerraria sobre mim. Claro, nesses três dias curtos eu não teria visto tudo o que queria ver. Só quando as trevas descessem de novo é que me daria conta do quanto eu deixei de apreciar.(...)
Usem seus olhos como se amanhã fossem perder a visão. E o mesmo se aplica aos outros sentidos. Oiçam a música das vozes, o canto dos pássaros, os possantes acordes de uma orquestra, como se amanhã fossem ficar surdos. Toquem cada objecto como se amanhã perdessem o tacto. Sintam o perfume das flores, saboreiem cada bocado, como se amanhã não mais sentissem aromas nem gostos.
Usem ao máximo todos os sentidos; gozem de todas as facetas do prazer e da beleza que o mundo lhes revela pelos vários meios de contacto fornecidos pela natureza. Mas, de todos os sentidos, estou certa de que a visão deve ser o mais delicioso"