Monday, January 22, 2007

Livro do Desassossego

"Quando ponho de parte os meus artíficios e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de carinho - com vontade de lhes dar beijos - os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases - fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste!...
Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre orfão abandonado nas suas sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. De meu pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá ideia de nada. Às vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma ideia dele a que posso amar... Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez não seja nunca esse o pai da minha alma...
Quando acabará isto tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde escolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para sua casa e me desse calor e afeição... Às vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar... Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio... Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum... E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis para seu filho adoptivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de brinquedos.
Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, ó Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci... Torna a dar-me, ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que eu dormia..."
Excerto retirado da obra "Livro do Desassossego", de Bernardo Soares.
O autor, Fernando Pessoa, numa carta a Armando Cortes-Rodrigues, em 1914, escreve a propósito deste livro: " O meu estado de espírito obriga-me agora a trabalhar bastante, sem querer, no Livro do Desassossego. Mas tudo fragmentos, fragmentos, fragmentos."
Fragmentos de génio que valerá a pena conhecer para entendermos o génio de Pessoa!

Sunday, January 14, 2007

Todos precisamos de afecto


"Os homens são seres que vivem em relação. Alimentam-se tanto de carícias e de atenções como de pão.
Privados de comunicação, sofrem. Aliás, o isolamento é a punição preferencial destinada aos prisioneiros rebeldes, e também é utilizado como instrumento de tortura.
Há alguns decénios, o psicólogo suiço René Spitz observou bebés hospitalizados. Eram tratados, lavados e alimentados, recebiam todos os cuidados necessários e no, entanto, morriam. Os recém-nascidos começavam por gritar, chamar, depois calavam-se, já não gritavam, já não chamavam; tinham compreendido que era inútil. Encolhiam-se e refugiavam-se no seu interior. Deixavam de se alimentar e, sem fazerem barulho, deixavam-se morrer docemente. Spitz chamou a este síndroma hospitalismo. Ninguém lhes sorria nem lhes falava, não eram importantes para ninguém, para quê viver?
A partir destes trabalhos, o pessoal de saúde foi sensibilizado para esta questão, os mimos foram considerados como parte integrante dos cuidados e um dos pais pode ficar com o bebé na maior parte dos serviços pediátricos. Actualmente já só verificamos o hospitalismo nos orfanatos dos países pobres, totalitários, ou em guerra, em que a urgência parece não ser a afectiva. Digo bem parece porque as crianças lá morrem tanto por falta de reconhecimento e de afecto como de fome ou de doença.
Não há nada mais insuportável do que o isolamento. Somos perto de seis biliões sobre a terra, agrupados nas cidades. Os meios de transporte e de comunicação são ultra-rápidos e de fácil acesso, no entanto, a solidão é um mal que cresce."
Este texto é extraído do livro "A inteligência do Coração" de Isabelle Filliozat, psicoterapeuta, especializada em análise transaccional e programação neurolinguística. As suas páginas podem ajudar-nos, se quisermos, a compreender a importância das emoções, fundamentais para a comunicação, para aprendermos a dominar os nossos medos, as nossas raivas, a partilhar as nossas alegrias, para aprendermos a sorrir e a encontar o nosso equilíbrio.
"Ouçamos os nossos corações em conjunto!"

Monday, January 08, 2007

Que procuramos?



"Que estamos buscando, quase todos nós? Que é isso que cada um de nós deseja alcançar? Sobretudo neste mundo inquieto, onde todos procuram alguma espécie de paz, alguma espécie de felicidade, um refúgio, importa, sem dúvida, averiguar o que tentamos alcançar, o que tentamos descobrir. Provavelmente a maioria dos homens está em busca de alguma espécie de felicidade, alguma espécie de paz; num mundo atormentado por agitações, guerras, competições, luta, deseja um refúgio, onde encontre um pouco de paz. Penso ser isso o que quase todos de nós desejamos. E, assim empenhamo-nos na procura, passamos de um guia para o outro, de uma organização para outra, de um instrutor para outro...
Ora bem, estamos procurando a felicidade ou estamos buscando alguma espécie de satisfação, da qual esperamos obter a felicidade?
Há diferença entre felicidade e satisfação. Pode-se procurar a felicidade? Talvez se possa achar a satisfação, mas, por certo, não se pode achar a felicidade.(...)
Queremos algo que dure eternamente, e que nos dê satisfação. Se nos desnudarmos de todas as palavras e frases, e olharmos a realidade, veremos que não desejamos outra coisa. Queremos prazer permanente, satisfação permanente - que chamamos a Verdade, Deus, ou o que quiserdes. (...)
Chegamos, assim, ao ponto em que nos perguntamos muito séria e profundamente, se a paz, a felicidade, a realidade, Deus, ou o que quer que seja, nos pode ser dado por outra pessoa. (...)
Afinal de contas, o ponto mais importante é este: enquanto eu não me compreender, não tenho base para o pensamento, e toda a minha busca será em vão. Posso refugiar-me em ilusões, fugir da competição, da luta, do conflito; posso venerar uma pessoa; posso buscar a minha salvação através de outrem. Mas enquanto eu me desconhecer, enquanto desconhecer o processo total de mim mesmo, não tenho base para o pensamento, para o afecto, para a acção.
Esta é porém a coisa que menos desejamos: conhecer a nós mesmos. Ela é, no entanto, decididamente, a única base sobre a qual tudo podemos edificar .(...)
Isto parece muito simples, mas é extremamente difícil! (...)
Quanto mais uma pessoa se conhece, tanto mais clareza existe. O autoconhecimento é infinito; nunca se chega a uma conclusão. É um rio sem fim. Estudando-o e penetrando-o mais e mais, encontramos a paz. Só quando a mente está tranquila - em virtude do autoconhecimento e não da autodisciplina - só então, nessa tranquilidade, nesse silêncio, pode manifestar-se a realidade. Só então pode haver bem-aventurança, acção criadora. Então talvez possa haver transformação imediata das relações, ao redor de nós, e, por conseguinte, no mundo em que vivemos".
Excerto retirado do livro "A primeira e última liberdade" de Krishnamurti.
Um verdadeiro bálsamo para o espírito!

Saturday, January 06, 2007

A inutilidade do sofrimento


Para María de Jesús Álava Reyes, autora do livro " A inutilidade do sofrimento", mesmo que as circunstâncias quotidianas tornem difícil o nosso dia-a-dia, se conseguirmos controlar os nossos pensamentos, poderemos ver essas circunstâncias como oportunidades de crescimento.
Licenciada em Psicologia pela Universidade Complutuense de Madrid e mestre em Direcção de Recursos Humanos, com um trabalho reconhecido em Espanha e na América Latina, María de Jesús Álava Reyes trabalha desde 1978, no âmbito da psicologia clínica, educativa e do trabalho. Conta já com mais de vinte publicações.
Aqui vos deixo mais uma sugestão de leitura que defende que o "sofrimento pode ser convertido em força e sabedoria, se essa for a nossa vontade", como nos afirma Catarina Mexia, no prefácio deste livro.
Façamos de cada dia uma nova aprendizagem!