Sunday, December 24, 2006

Quem ama não adoece



" Comecei aos poucos a interessar-me pelas pessoas que são os meus pacientes, e não apenas pelos sintomas que relatavam. Passei a querer saber das suas vidas, das suas famílias, das suas dores e amores. E algo surgiu, para mim, límpido e cristalino: eram quase todos sofredores. Quase todos transmitiam desgosto e desânimo pela vida. De uma forma ou de outra, descobria sempre em cada história um traço de desamor. Negado, escondido, camuflado, mas presente (...)

Estava, então, preparado e aberto para essa nova compreensão do adoecer e da minha vida. O meu espírito treinado na lógica cartesiana, todavia, reclamava a comprovação científica; pedia o enquadramento teórico para a realidade que começava a desenhar-se diante dos meus olhos:

aqueles que traziam dentro de si a capacidade de amar eram pessoas felizes; e estas não adoeciam, ou não adoeciam de doença grave. (...)

Acredito que aqueles que lograram alcançar, ao menos parcialmente, o estado de paz interior, que lhes permitiu uma existência plena de amor pela vida e pelo mundo, terão possibilidades muito grandes de acabar os seus dias premiados com uma morte saudável: sem doença, sem dor, sem angústia. Terão morrido, a rigor, de tanto viver.

Estou hoje convencido de que o grande drama da vida não é morrer; é não viver. Morrer sem ter de facto vivido. E não ter vivido significa, em última análise, não ter amado. Por isso acredito que nesta vida quem de facto ama não adoece."

O autor deste livro "Quem ama não adoece", Dr. Marco Aurélio Dias da Silva, pretende demonstrar de forma profunda - baseado na sua prática clínica e utilizando uma linguagem acessível - a importância das emoções na prevenção e cura das doenças. Para este médico brasileiro, especialista em cardiologia, o amor pode ajudar a curar o ser humano. Após vários anos de pesquisa, defende o seguinte: quem não foi amado de forma adequada e/ou insuficiente frequentemente não consegue amar; não amando, será infeliz e o corpo, adoecendo, será o palco para dar vazão e comunicar aos outros o seu sofrimento.


Valerá a pena ler este livro!

Wednesday, December 20, 2006

Jean Christophe



Acabo de reler "Jean Christophe". Obra extraordinária, quer quanto à sua concepção, quer quanto às ideias, factos e sentimentos aqui retratados!

Prémio Nobel, em 1915, Romain Rolland nasceu em Clamecy, a 29 de Janeiro de 1866, vindo a falecer a 30 de Dezembro de 1944, em Vézelay. Consagrando-se especialmente à Musicologia e à Literatuta, visitou, em missão de estudos, os principais centros culturais da Europa. Da sua vasta obra, destaca-se "Jean Christophe", considerado um dos maiores romances de todos os tempos.

Para aqui transcrevo as próprias palavras do autor extraídas da nota final deste livro:

Adeus a Jean-Christophe

Escrevi a tragédia de uma geração que vai desaparecer. Nada procurei dissimular dos seus vícios e das suas virtudes, nem da sua tristeza pesada, do seu orgulho caótico, dos seus esforços heróicos e dos seus acabrunhamentos sob o fardo esmagador de uma tarefa sobre-humana: todo um resumo do mundo, uma moral, uma estética, uma fé, uma humanidade nova a refazer. Eis o que fomos.

Homens de hoje, jovens que sois, é a vossa vez! Fazei dos nossos corpos um degrau e ide para a frente. Sede maiores e mais felizes que nós.

Também eu digo adeus à minha alma passada e deito-a para trás de mim, como um invólucro vazio. A vida é uma série de mortes e ressurreições. Morramos, Christophe, para renascer!

Outubro de 1912

Friday, December 08, 2006

Música imortal

"A vida passa e o corpo e a alma escoam-se como uma torrente, os anos inscrevem-se no cerne da árvore que envelhece, o mundo inteiro das formas desgasta-se e renova-se.
Só tu não passas música imortal.
Tu és o mar interior, tu és a alma profunda. Nas tuas claras pupilas, a vida não mira a sua face melancólica. Distante de ti, qual rebanho de nuvens, fogem os dias adustos, gelados e ardentes que a inquietação persegue, que nada consegue fixar. Só tu não passas. Estás à margem do mundo. Tu, sózinha, és um mundo. Tens o teu Sol, que conduz a tua ronda de planetas, a tua gravitação, os teus números e as tuas leis. Tens a paz das estrelas que traçam no campo dos espaços nocturnos uma esteira luminosa - charruas de prata guiadas pelo invisivel lavrador.
Música, serena amiga, a tua claridade lunar é suave aos olhos fatigados pela luminosidade brutal do sol que nos queima. A alma que se desvia do bebedouro comum, onde os homens para beber remexem o lodo com os pés, aperta-se contra o teu peito e suga nos teus seios o regato de leite do sonho.
Música, virgem mãe, que trazes no teu corpo imaculado todas as paixões, que abarcas no lago dos teus olhos cor de junco, cor da água verde-pálida das geleiras, todo o bem, todo o mal - estás para além do mal, estás para além do bem.
Quem em ti fez o seu ninho vive fora dos séculos, a sequência dos seus dias será apenas um dia, e a morte, que tudo morde, aí partirá os dentes.
Música que embalaste a minha alma dolorida, música que a restituíste calma, firme e jubilosa - meu amor e meu bem - , beijo a tua boca pura, nos teus cabelos de mel escondo o meu rosto, apoio as minhas pálpebras que ardem na macia palma das tuas mãos. E calamo-nos, os nossos olhos estão fechados e vejo a luz inefável dos teus olhos, bebo o sorriso da tua boca muda e, aninhado no teu coração, ouço o pulsar da vida eterna".
Maravilhoso livro este "Jean Christophe"!
Nestes dias de chuva fria e copiosa, com ventos fortes e gelados, com o sol ausente, teimando em não nos visitar, Romain Rolland, aquece-nos a alma, fazendo a apologia da Música, da Vida, da sua beleza, pureza e profundidade. O herói é o símbolo do génio que luta contra a mediocridade na vida e na arte, em defesa de um ideal que há-de salvar o ser humano.